5.12.08

sabe, nunca estará completo. meus varais são assim banais. penduro muito, e muito do que penduro fica apenas lá. nos panos, pessoas adoram falar que uma bomba estourou no trabalho. talvez porque assim haja um pouco de emoção em suas vidas, talvez porque nunca estiveram em um campo minado. seja como for, bombas só estouram por reações químicas desencadeadas pela ação de terceiro(s). bombas ocorrem em guerras, em pós-guerras, em prés-guerras, em festas juninas, em domingos de futebol, em corações partidos e nos apaixonados. não na firma. não na firma.

25.11.08

e entre o que falta por completar (ou ver que no final já está completo) e o passado pilar formado, vou construindo algo parecido à Biblioteca de Babel. não a real, que não sei como seria, mas a inventada pelas letras de um daqueles que poderia 'muy bien' ser mais uma ilusão da combinatória lógica dos signos que formam seus volumes. mas isso seria aspirar demasiado. meus varais são banais e assim os prefiro. banais e esquecidos, amontoados.

21.11.08

e esse seria mais um daqueles varais que eu deixei. deixei pelas chuvas terem passado, os sois passado, e meus olhos não verem o que me chamava tanto, nem meu coração sentir por eles a alteração que antes sentia. então mudo de janela, de vidros e calcinhas e biles e choros. e o que parece esquecido se amontoa pra formar um passado pilar de futuro (no silêncio das minhas preces desejo que algumas fiquem. algumas daquelas que realmente me desassossegam fiquem. e eu não esqueça do que falta completar).
e molhem bastante. o suficiente para talvez mudar de aspecto. e quando venha um dia de sol, tão esperado dia de sol, eu vá até o varal e não as reconheça. ainda que as tenha velado noites olhando através da janela. não as reconheceria, então poderia guardá-las, como outra coisa qualquer. ou simplesmente as deixaria ali, esquecidas. 

19.11.08

não que um dia eu tenha sabido onde guardá-las. algumas são inguardáveis mesmo e por isso ficam aqui me espinhando, me fazendo olhar a janela no escuro à noite. algumas deixei na chuva, é bom que elas molhem.
então começou a chover. e fui tirar as coisas do varal.
não encontrei onde guardar algumas.

4.11.08

tudo dependurado no varal. os vidros, a bile, a calcinha e os choros.

28.10.08

hoje lixei meus dentes com uma lixa de unha.

14.10.08

no existen más que dos reglas para escribir: 
tener algo que decir y decirlo.

oscar wilde.

1.10.08

a grande dor não se assoa.
(n. rodrigues)

18.9.08

what is 'familiarly known' is not properly known, 
just for the reason that it is 'familiar'.

g.w.f. hegel

15.9.08

ninguém nunca vai saber o quanto você amou ou odiou. o quando desejou, como foi conseguir, como doeu não conseguir. ninguém nunca vai saber o quanto as pessoas que você ama importam pra você, nem elas. ninguém nunca vai estudar seus livros por você, e conquistar seus sonhos. ninguém nunca vai saber o quanto custou chegar ao fim, ou começar. você vai estar sozinho quando chorar de desespero, e vai precisar estar sozinho. você vai estar sozinho com seu joelho ralado, e só você vai sentir o ardor. você vai sentir sozinho os arrepios de um beijo almejado, a alegria de rever um amigo, a gratidão de ser amparado. você vai estar sozinho sempre que coisas boas, ruins, importantes ou não acontecerem. certamente estará sozinho naquela dificuldade gigante, e talvez justamente por isso ela seja a pior, porque é nessas horas que a verdade da solidão dói no estômago. e, sozinho, vai sentir que apesar disso tudo, estar bem acompanhado é uma das maiores conquistas que alguém pode obter. e vai desejar isso sempre. e vai lutar por isso. mas saber o quanto uma boa companhia vale, bom, daí é você que nunca vai saber.

4.9.08

cada vez vejo menos.

19.8.08

se o sonho desprovido de lógica é frívolo, a lógica desprovida de sonho é deserta.
(e. giannetti)

4.8.08

Time present and time past
Are both perhaps present in time future
And time future contained in time past.
If all time is eternally present
All time is unredeemable.

T. S. Eliot

18.4.08

para fazer o bem é sempre necessária a ação da vontade, mas, para não fazer o mal, bastam frequentemente a inércia e a negligência.
(P.)

16.4.08

10.4.08

primeiro a barriga, depois a moral.
(b. brecht)

2.4.08

é só de vez em quando

eu vivo cada dia esperando o que vem depois. eu acordo na segunda pensando na sexta. eu levanto rumo ao dia pensando no gelo do copo à noite. eu faço vinte anos pensando nos quarenta, eu faço força pra caminhar pro futuro deixando o passado e riscando o presente do meu dicionário. eu como chocolates pensando na gordura vindo pro abdômen. eu pego o ônibus pensando fundo em tudo que não tenho mais e suspiro de uma saudade imensamente maior que eu. eu até às vezes torço pra acabar logo é que eu já às vezes não quero desejar, conquistar e planejar só pra tudo acabar e me restar a janela com molduras de lágrimas céu turquesa no fundo. eu às vezes até quero, sim. às vezes até sou forte, faço, tudo, busco, corro, faço, rindo, forte. e nessas horas até parece que vivo. mas se me deixo pensando nas pedras do chão, que sujas rolam, ficam, e permanecem, as pobres permanecem, me dá aquele calor de fogo nas orelhas, e então afasto esse sussurro pra continuar meus passos firmes, resolutos, tão invencíveis quanto floco de açúcar frente a balde d’água. balde d’água na minha cabeça. nascer, crescer, estudar, trabalhar, ter um bom cônjuge, ter bons filhos, ter bons netos e acabar lenta, seca, e remanescente num canto de sala, esperando o fim que virá, e não vem esse fim, fim onde está você, olhando o que se foi, resgatando lembranças, tirando poeira, vendendo por muito mais do que elas valem. essa é a beleza da vida, com alguns momentos de alegria e tristezas infinitas no meio, mas essa é a vida, a sua, a minha e a dos que virão.
por que será que em algumas tardes dessas não vejo graça alguma nisso?

31.3.08


mirar lejos es contemplar el pasado.

a. einstein
rhythm is the precise interaction of sound and silence.
(michael zigmond)

27.3.08

once one lived in a seamless experience of wordlessness. wordlessness
means that everything is continuous. the later dream of an ideal of
language, a language which says all simultaneously, perhaps begins
with the memory of this state without memories.

john berger

19.3.08

18.3.08

Perhaps at the beginning
time and the visible,
twin makers of distance,
arrived together,
drunk
battering on the door
just before dawn.

The first light sobered them,
and examining the day,
they spoke
about the far, the past, the invisible.
They spoke of the horizons
surrounding everything
which has not yet disappeared.


john berger

27.2.08

Eu passaria meus dias rezando pra ter dias infinitos pra te ver dormir e acordar, pra passar a mão entre os fios desalinhados do seu cabelo, pra reparar no desenho da sua boca e dos seus olhos, pra ficar imaginando como meus filhos serão lindos se tiverem esses traços nos rostos deles. Pra ficar sentindo o cheiro da nossa cama antes de dormir, pra pensar na fruta que você gosta de comer de manhã, pra ficar rastreando seus cheiros em cada parte do seu corpo, pra ter orgulho da sua paciência, pra invejar sua generosidade, pra comer todas as comidas deliciosas que você faz. Pra investigar porque não cansa de fazer por mim, pra resgatar as palavras que você não me falou mas que são minhas, pra ficar perdida no seu mundo com cada surpresa que você traz pra mim. Eu seria capaz de ficar uma tarde toda desejando ter você em todas as tardes da minha vida. Eu escreveria tratados imortais sobre respeito, fidelidade, afeição. Eu juntaria todo você num amontoado e poria dentro de mim, eu me amontoaria e moraria dentro de você. Eu às vezes passo o tempo pensando em quão brilhante você é. E o quanto eu sou feliz. Inteira.