30.11.10

coisas que não mudam com o tempo podem atestar que ele não passa:

> quando tudo é desarranjo e a braveza vem várias vezes a gente acha que é vítima e maldiz o mundo, quando está tudo no lugar e o coração bate tranquilo qualquer malvadeza é vista como acidente e a gente exulta o mundo

21.11.10

e passava, sem ser necessariamente visto, ouvido ou sentido. passava. e retornava. e bastava esse retorno para criar un intervalo regular de repetição, e com isso, ser medido. e depois de ser medido e medido e medido, e nunca exato, ser relativizado.

24.9.10

pequenininho que nem um grão de areia deitado no chão e olhando pro céu, imaginando a bola azul girando girando e fazendo o sol percorrer seu corpo, era bonito pensar que a imensidão daquilo tudo era medida pelas coisas pequenas para que sua vida não sumisse no gigante do mundo. demorou pra entender, riu e fechou os olhos pra ouvir o tempo passar.

10.9.10

as ondas que vêm e se vão, num movimento repetido porém único. um movimento como unidade mínima, como um segundo, que marca o tempo. incessante, o reflexo de um movimento maior, de rotação, tão grande que é necessário ser visto nas pequenas coisas, mais à nossa medida, humana, se não demasiado curta e insignificante seria nossa vida.

10.8.10

e as tardes de domingo são particularmente doídas porque escancaram um tempo que passou sem alterações desejadas de miúdo pelo coração. nessas horas o sol no poente lambe nossa cara e dança à finitude. apesar de pintar céu e mar magistralmente para a alegria dos olhos, alguma coisa se enrola no peito e esponta num suspiro. um casal e a solidão se abraçam olhando as ondas.

12.7.10

e perto dali, em algum lugar onde a areia se perde no mar, o sol se desfazia. e continuava passando o tempo. na solidão desse novo tempo, a percepção já era outra. de um domingo fim de tarde, com a incerteza dos próximos dias, mas que passarão.

28.6.10

e o que vale além disso? se percepção é a inferência da mais provável situação ambiental dado um padrão de estimulação... talvez nossos ancestrais desde sempre se entreolhavam ao reparar nas próprias rugas e na mudança nas árvores quando pensavam no tempo. somos a referência para tudo que nos circunda e juntos calibramos a realidade. avós continuarão a se encontrar na feira e falarão do passado, do presente, do futuro de chuva (duas velhinhas de bochechas rosadas sorriem com suas sombrinhas nessa foto sob a mesa: Sunday at Maldon).

2.6.10

talvez seremos sempre a referência. mesmo das coisas que estão, que existem. porque estar e existir e o tempo e o passo do tempo são também palavras nossas, usadas. e o papel amarelado também é, existe, está. mas talvez sirva de referência para outras coisas, mais palavras.

6.5.10

dizem por aí que o tempo não passa porque não há movimento em referência a alguma coisa, ele é, existe, está. mas esse reflexo na parede sem compaixão confunde a humanidade. quem grudou o papel tem hoje mais sulcos na face e talvez fios a menos. num canto amarelado, lê-se: perhaps we are the reference.

10.4.10

um desses reflexos da luz do sol na parede, durante o verão, quando a incidência da luz era diferente, ia deixando amarelado um pedaço de papel colocado ali, àquela altura, de próposito, para tornar visível uma coisa chamada tempo. e fazer lembrar que existe, ainda.

28.3.10

do teto pendia um lustre muito delicado, com pedras coloridas refletindo a luz do sol na parede. chegando perto se sentia o cheiro de pão fresco no café da manhã, manteiga, leite, café.

3.3.10

uma moldura enquadrava desenhos de pequenos pássaros, em papel seda, um em cima do outro. e uma nota: les oiseaux chantent avec les doigts.

17.2.10

no canto oposto, jaziam no chão alguns pedaços de papel rosado transparente, restos de sonhos de um caminho, com fios de cabelo pó dos dias e uma formiga minúscula. minúscula.

30.1.10

numa das paredes, acho que a que está à direita entrando, vários desenhos. desenhos pequenos, frágeis, íntimos, levemente pendurados. no chão, um pequeno vaso de planta completava o conjunto, era simples e bonito. poderia estar ali, por muito tempo.

25.1.10

sob a redonda mesinha de canto, um cachimbo do charmoso detetive. ainda se pode sentir o cheiro do fumo e a foligem na borda. o charme, como todo bom charme, estava no jeito de pensar as coisas e como isso se punha pra fora (só os detalhes importam).

12.1.10

um velho azulejo pintado se apóia no chão e na parede. lembranças de uma terra pioniera e a ilusão de lá se estar, escutando os velhos ruídos dos elétricos entre frases sussurradas num canto de teatro... durmamos, por ter falado tanto, escutado tanto, penado tanto, jogado tanto.