23.4.09
duas horas se passaram, mas pareceram alguns minutos. sabia que ali não era exatamente um lugar onde poderia descansar tranqüilamente naquela noite. olhei pro céu pendurado de estrelas e lembrei do que um professor disse uma vez, que o céu era um imenso mosaico do passado. pelo menos o passado do que um dia compôs o universo. também dentro de mim havia um mosaico de sentimentos que compunham meu passado, retalhado de cheiros, imagens, sons, texturas que de certa forma delimitavam também minha pele, o brilho dos meus olhos, o que sai da minha boca. voltei os olhos pra grama escurecida de noite pelo chamado de uma formiga impertinente na canela. se o castelo era agora um norte, não poderia entregar o corpo ao luxo do sono. era preciso chegar lá antes do sol. imaginei a terra e sua rotação incansável e corri, corri como quem corre em sentido contrário a ela, como se pudesse reverter o percurso das horas. enquanto controlava os passos desviando de buracos no caminho, demorei a cabeça no que haveria dentro das paredes de pedra. será que alguém morava ali? será que doeria conhecê-los? as dúvidas me atrapalharam a visão e com o pé metido em uma pequena vala caí como uma grande jaca no chão. culpando meu pé, percebi o quanto ainda cada célula minha precisava de descanso. e agora sem dúvida, andei até o pé de uma árvore, me ajeitei nela, repeti alto que não poderia haver nenhum perigo. nenhum maior do que eu mesma representava pra mim.
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